As notícias sobre feminicídios, que chegam diariamente aos celulares por meio de redes sociais e aplicativos de mensagem, têm provocado impactos profundos na saúde mental de mulheres. Para muitas, especialmente aquelas que já vivenciaram situações de violência, cada informação nova reforça o medo e a sensação de vulnerabilidade.
De acordo com a psicóloga Juscimária Bezerra, da Hapvida, esse tipo de reação não deve ser interpretado como fraqueza, mas como uma resposta natural do cérebro diante da repetição de estímulos negativos.
“Esse sentimento pode ser cuidado. Faz muito sentido isso acontecer, porque, a todo momento, nós estamos sendo expostas a notícias desse tipo nos meios de comunicação e nas redes sociais, como Facebook, Instagram e WhatsApp. Particularmente, percebo que muitos casos estão muito próximos da gente. Pessoas do nosso bairro, do nosso ciclo de amigos”, exemplifica.
Esse cenário se torna ainda mais preocupante diante do avanço dos casos no país. Dados consolidados de 2025 apontam um recorde alarmante: foram registradas 1.568 mulheres vítimas de feminicídio no Brasil, o maior número desde a tipificação do crime em 2015, representando um aumento de 4,7% em relação a 2024.
Em Sergipe, a realidade também acende um alerta. O estado registrou 16 feminicídios em 2025, um crescimento de 50% em comparação aos 10 casos de 2024, interrompendo uma tendência de queda. A maioria dos crimes ocorreu no ambiente doméstico, com concentração significativa no mês de dezembro.
Nesse contexto, uma pesquisa internacional publicada em 2025 no Journal of Aggression, Maltreatment & Trauma analisou os efeitos da exposição a conteúdos de violência nas redes sociais sobre a saúde mental de usuários que não vivenciaram diretamente essas situações.
O estudo utilizou a Gun Violence on Social Media Scale (GVSMS), ferramenta criada para medir a frequência de exposição a conteúdos violentos, a intensidade emocional provocada e seus impactos psicológicos indiretos.
A pesquisa avaliou adultos por meio de questionários e cruzou o nível de exposição com indicadores de saúde mental como ansiedade, depressão e trauma psicológico. O objetivo foi ampliar o foco tradicional dos estudos sobre violência, incluindo também os efeitos do consumo indireto desse tipo de conteúdo nas redes sociais.
Efeito Gatilho
O tema tem sido cada vez mais frequente em consultórios psicológicos. Pacientes relatam crises de ansiedade, angústia e até a reativação de traumas ao se depararem com histórias semelhantes às suas. Esse fenômeno é conhecido como “efeito gatilho”, quando experiências externas despertam memórias e emoções associadas a vivências dolorosas.
Segundo a psicóloga da Hapvida, essa proximidade intensifica a percepção de risco e aciona mecanismos de defesa do organismo. “O que acontece com tanto estímulo dentro da nossa realidade é que o nosso cérebro entra em estado de alerta. Ele entra como uma forma de autopreservação, porque, com esse volume de notícias, é como se o perigo fosse algo constante, algo possível, mesmo que não estejamos em uma relação com características de violência. Ainda assim, o cérebro ativa esse modo de proteção”, afirma Juscimária.
Apesar da dificuldade em controlar o fluxo de informações, a especialista destaca que é possível desenvolver formas mais saudáveis de lidar com esse cenário.
“A gente não consegue controlar o mundo, nem como a informação chega até nós. Mas a gente consegue trabalhar a forma como isso nos atravessa, como isso nos toca, como a gente digere todas essas informações que chegam. Viver só no medo não é um caminho. A gente não precisa viver refém disso: é possível trabalhar a nossa forma de lidar com tudo isso”, orienta.
Como lidar com o medo
Diante desse cenário, Juscimária reforça que existem estratégias práticas para reduzir os impactos emocionais causados pela exposição constante a esse tipo de conteúdo, sem ignorar a gravidade da realidade. "Uma das estratégias é evitar o uso excessivo de redes sociais e o consumo de páginas que trazem frequentemente esse tipo de notícia, porque, quando a gente consome bastante esse material, a nossa mente entra em um estado de alerta frequente e, consequentemente, aumenta os níveis de ansiedade", pontua.
Outra dica é buscar uma rede de apoio. "É muito importante encontrar pessoas em quem a gente confia para conversar, dividir o que sente e compartilhar experiências. Tudo isso associado à psicoterapia. Um espaço seguro, com escuta profissional, para que você possa falar sobre si sem julgamentos e traçar estratégias de enfrentamento. Essa elaboração acontece dentro desse espaço terapêutico do consultório, que é um lugar de acolhimento. A gente não consegue controlar o que acontece lá fora, as notícias, mas consegue elaborar e cuidar de como isso vai nos afetar, de como isso nos acessa”, conclui.
Sobre a Hapvida
Com mais de 80 anos de experiência, a Hapvida é hoje a maior empresa de saúde integrada da América Latina. A companhia, que possui mais de 77 mil colaboradores, atende quase 16 milhões de beneficiários de saúde e odontologia espalhados pelas cinco regiões do Brasil.
Todo o aparato foi construído a partir de uma visão voltada ao cuidado de ponta a ponta, a partir de 85 hospitais, 74 prontos atendimentos, 364 clínicas médicas e 309 centros de diagnóstico por imagem e coleta laboratorial, além de unidades especificamente voltadas ao cuidado preventivo e crônico. Dessa combinação de negócios, apoiada em qualidade médica e inovação, resulta uma empresa com os melhores recursos humanos e tecnológicos para os seus clientes




